Foi lançada, no dia 21 de julho, no Centro de Cultura de Porto Seguro, a cartilha “Zumbi apareceu em Coroa Vermelha”. O evento aconteceu a partir das 18 horas e reuniu líderes de movimentos sociais ligados à causa negra e indígena. A cartilha é um trabalho produzido pelas antropólogas Celene Fonseca e Suely Santos e fornece uma visão diferente das comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, da própria história do país e também das relações étnicas e sociais que marcam a nação brasileira. A publicação tem como proponente o Movimento Negro Unificado e é patrocinada pelo Centro de Estudos dos Povos Afro-índio-Americanos (Cepaia), Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Associação de Pesquisadores Negros da Bahia (APNB), Coordenadoria Ecumênica de Serviços (Cese) e Colibris.


Além das coordenadoras do projeto, estiveram presentes: o representante do Instituto Brasil Chama África, José Arlindo; a superintendente de Assuntos Indígenas da Prefeitura de Porto Seguro, Luzia Pataxó; o representante do Movimento de Defesa de Porto Seguro, Antônio Tamarri; Gilberlice Menezes, do Comitê de Promoção da Igualdade Racial, entre outros.


Durante a palestra de lançamento, a antropóloga Celene Fonseca afirmou que o projeto do Museu Aberto do Descobrimento (Made), proposto pelo Governo Fernando Henrique Cardoso para comemorar os 500 anos do desembarque da esquadra de Pedro Álvares Cabral no Brasil, era de caráter arcaico, eurocêntrico e colonialista. “Eu fiz um relatório sobre esse projeto e o enviei a Associação Nacional Indigenista, que o criticou fortemente. Essa divergência foi exposta em diversos jornais de circulação nacional, o que contribuiu para que tal iniciativa governamental fosse rechaçada.




Outro fator que influenciou nesse processo foi o massacre de Eldorado dos Carajás, quando trabalhadores sem-terra foram assassinados, em 17 de abril de 1996. O Movimento Sem-Terra (MST) estava aguerrido e abraçou a nossa luta”, explicou Celene, salientando o esforço do Movimento Brasil Outros 500, que lançou publicação com o título “O Descobrimento que não houve” e que é preciso “desconstruir o Descobrimento”. “O governo foi recuando em relação ao Museu Aberto. Em 1997, o presidente Fernando Henrique já não o citava mais”, frisou.


“Em 2000, a imagem do índio Gildo Terena sendo pisoteado por policiais durante as comemorações de Porto Seguro ganharam o mundo, sendo divulgada até em sites da China, com texto em ideogramas chineses. Sobre esse episódio, o jornal inglês The Economist publicou matéria com o título “A luta de classes não acabou no Brasil”. O que estava em confronto eram duas visões de mundo, sendo uma que pregava um Brasil dependente de Portugal, uma extensão do Reino Unido de Portugal e Algarves e outro de um Brasil pluriétnico, milenar, de 40 mil anos”, disse a antropóloga.


Para Luzia Pataxó, foi muito triste rever as imagens de negros e índios sendo reprimidos pela Polícia Militar durante as comemorações em Porto Seguro. “Retorna a minha lembrança daquele momento, quando houve aquela confrontação com o meu povo. A cartilha tem um referencial voltada à mídia, que nem sempre retrata os fatos de acordo com a realidade. Nem tudo que foi divulgado sobre a festa dos 500 anos, a respeito dos índios, aconteceu de fato”, declarou.


José Arlindo enfatizou que o racismo é criado e mantido por estruturas de poder, que impõem seus discursos aos oprimidos. “Estou em Porto Seguro há 23 anos e há quatro no Instituto Brasil Chama África. Sou radialista e acredito que a mídia, naquele momento, estava tomada por uma visão de poder. Como exemplo disso, foi noticiado que o acesso a Porto Seguro estava impedido por manifestantes. O racismo não é apenas o predomínio de uma raça sobre outra, mas principalmente um pensamento baseado na negação de direitos. Queremos a desconstrução do que foi construído historicamente”, explanou.


Por: Liberdadenews/Ascom


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